Séculos após ter sido criado, o teatro aida não é uma cultura de massa
“Nada deve ser impossível de mudar”. A frase de Bertold Brecht é ideal para refletir sobre o hábito de ir ao teatro. Desde os anos 60, a França já buscava um meio de as pessoas freqüentarem-no, mas o público continua escasso.
O teatro por si só tem o poder de transformação da sociedade e é um estimulo à compreensão humana e social. Gisela de Castro, da Zucca Produções, do Rio de Janeiro, lembra que o teatro atinge o lado do pensar, do se conhecer e de questionamento da essência e da realidade. “O teatro tem esse papel de falar do ser humano e fazê-lo refletir o porquê estamos aqui”, diz.
Na opinião de André Zambelli, presidente da Associação de Teatro de Bauru, o teatro se tornou uma atividade elitista e acabou ficando para segundo plano na agenda da população principalmente após o advento da televisão e do cinema. Essa situação criada pode ser atribuída ao desinteresse do público, à falta de apoio do governo, a uma deficiência de poder aquisitivo, falha de divulgação das peças ou é culpa das próprias companhias?
A Produtora em que Gisela trabalha realiza a “Campanha Primeira Ida ao Teatro” com o objetivo de atrair aqueles cidadãos que pensam que o universo cênico está distante e que eles não fazem parte daquilo. Para André Zambelli, o teatro é um espelho da sociedade. “A sensação que o público tem depois de um espetáculo bom é de alívio. É uma terapia identificar nos personagens nossos próprios problemas e nos libertarmos desse problemas”, diz ele.
A atuação teatral é uma arte viva, faz pensar questões reais como se fossem fantasiosas e fantasias como se fossem realidade. Dessa forma, nos faz entender melhor uma e outra. Ao transpor o mundo real para o mundo da ficção, a arte promove um exercício ao ser humano – que está eternamente à espera de algo ou de alguém que satisfaça suas aspirações em meio ao absurdo da existência. Já dizia Samuel Beckett, “o homem é o herói que expia o pecado de ter nascido”.
O teatro contribui para a satisfação humana assim como as necessidades básicas de saúde e alimentação. A Produtora Zucca atua cobrando dos governos a cultura como parte da cesta básica da população. “Aventura, diversão e lazer para a saúde mental do ser humano, tanto quanto comida, saúde e educação. Esse todo constitui a formação da sociedade”, nas palavras de Gisela.
Os governos realizam leis de incentivo municipais, estaduais e federais. As leis municipais têm um financiamento mais direto e uma proximidade maior com as companhias. Essas leis são principalmente de fomento – baseadas em editais de prêmios e filantropia de empresas.
No imaginário das pessoas persiste a crença que teatro é caro. Existem peças para todo tipo de gosto e público. André Zambelli questiona: “nesse mundo quem não gosta de teatro?”. Há teatros a preços populares ou gratuitos, como o de rua, praticado pelo Grupo Mandrágora de Bauru. Também a Secretaria de Cultura da cidade oferece oficinas e cursos, parcerias com escolas e espetáculos gratuitos. O secretário José Augusto Ribeiro Vinagre diz que já está em prática um projeto de incentivo à população carente. “A gente sabe que muitos têm dificuldade de chegar ao Teatro Municipal. Desde 2007, estamos trabalhando com apresentações nos bairros com grupos da cidade”.
A mídia tem o papel de divulgar os espetáculos, e as companhias, por sua vez, de delimitar seu público-alvo de acordo com a mensagem de cada peça. A solução para essa equação que leve o público ao teatro não é fácil, mas necessária. Mais fácil do que resolvê-la é reservar seu lugar na poltrona.






